Eu sou fraco, eu não o nego
Se não visse isto eu era cego
Mas isto não posso mostrar
Então só posso isto disfarçar
Mesmo sem ter uns olhos poderosos
Olho fixamente o olhar daqueles lobos
Mesmo sem ter um coração ardente
Mantenho a cabeça erguida em frente
Eu caio mais que qualquer pessoa sabe
E eu espero que tudo isto apenas acabe
Mas escapo-me dos olhares quando cedo
Assim escondendo todo a fraqueza e medo
No entanto eu sempre me levanto
Apenas para sofrer mais um pouco
E para meu doloroso desencanto
Vou sempre parar a um calabouço
Se tivesse rastejado como eu merecia
Ou se fingisse ter desmaiado no chão
A sofrer destas dores eu já não voltaria
Nem desejaria um fim por minha salvação
Oiçam o mundo que em nosso pés vibra
Sintam o som dos planetas tão distantes
Do nada somos apenas enfermas sombras
E só pequeneza refletem nossos semblantes
Quem somos nós para questionar o nada?
Que desde todo o sempre é a nossa morada
Procuramos respostas a perguntas duvidosas
E chegamos mesmo a criar situações perigosas
Apenas pelo saber, apenas pelo conhecimento
Movidos pela fome da mente e um olhar atento
Remexendo no próprio fundamento do universo
Num eterno procurar tão violento e tão perverso
No entanto eu mesmo procuro o impossível
Quero sentir em minhas mãos o inatingível
No entanto desejava apenas me contentar
Com aquilo que nós conseguimos alcançar
Queria esquecer que o mundo não vibra
Eu queria não saber que o Sol não gira
Não preciso matar a sede, só esquecê-la
E no negro deste meu universo perde-la
Deixem-me ouvir a música mundana
Tão suave e calma e sincera e irreal
Que me afasta desta praga humana
Uma sede de saber que não tem final
Corta-me as asas para eu não voar
Porque a verdade só está num sítio
Na terra onde devia estar e não no ar
Mesmo quando na beira do precipício
Cobre-me os olhos ao que não é real
Porque as ilusões apenas me enterram
Só quero um pouco do que é normal
Para me livrar dos olhos que me matam
Conta-me uma história que não tenha heróis
Porque neste mundo já não há guerreiros
A única salvação que conheço vem depois
Quando a batalha termina sem companheiros
Mete uma moeda de prata em minha boca
Para pagar o óbolo ao infernal barqueiro
Só ela pode mesmo vir a ser coisa pouca
Mas acalmará o meu espírito forasteiro
Todos nós nascemos sob uma condição
De que cada um chega ao mundo vazio
Mas crescemos com tanta manipulação
Que chego ao ponto de lhe ganhar escárnio
Já nada do que fazemos escolhemos
Não há originalidade na mente humana
Já nem a nós mesmos somos sinceros
Nem mesmo quem possui mente insana
Somos neutralizados pela sociedade
Amenizados pela constante repetição
Pela TV, rádio, jornais e publicidade
Quem nos pode livrar desta situação?
Nem pela falta de acção somos movidos
Perguntamos para quê, com neutralidade
Já não nos guiamos por nossos sentidos
À muito que se acabou a vida de verdade
Então viveremos assim sem nunca aceitar
Que fomos neutralizados para não sonhar
Apenas podemos copiar o que eles querem
Porque neste mundo sonhos já não fluem
Eu não acredito em deuses
Nem na Bíblia e suas frases
São histórias mal contadas
Talvez até mal interpretadas
Eu não acredito na reencarnação
Nem paraíso ou eterna punição
Quando a morte chega morremos
A partir dai nada mais seremos
Eu não acredito na humanidade
Nem na sua suposta superioridade
É só um desperdício de esperança
Acreditar nesta gente sem pujança
Eu não acredito em mim próprio
Perdi tudo o que restava de brio
Eu sei como vai ser o meu futuro
Obscuro, inseguro, impuro e duro
Eu não acredito nem preciso acreditar
Porque meu objectivo aqui não é crer
Só tenho que me levantar e afrontar
Este mundo que já não quero saber